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Geração após geração, observamos muitas vezes a transmissão de crenças, de valores e de hábitos parentais. A expressão popular “tal pai, tal filho” não surge por acaso.

É na infância que os modelos parentais atingem a sua máxima importância e, se na infância a criança tende a reproduzir os comportamentos que observa, na idade adulta a tendência mantém-se, isto é, enquanto figura parental, o adulto tenderá a reproduzir o modelo parental que observou durante a sua infância. Mas existem excepções, como os casos em que, por exemplo, a criança vivenciou uma parentalidade negativa mas conseguiu quebrar o ciclo por ter tido a oportunidade de estar em contacto com um ou mais modelos positivos na sua vida.

Todos nós temos as nossas crenças relativamente à educação dos filhos. Mesmo os que não os têm, quase sempre têm algo a dizer em relação a esta matéria. O que para muitos não é imediato é que qualquer que seja a ideologia por detrás da educação dos seus filhos, esta irá produzir resultados a longo prazo, positivos ou negativos, que poderão perdurar pela vida inteira.

Os autores definem estilos parentais como o conjunto de atitudes que são comunicados à criança ou ao jovem, criando em conjunto um clima emocional, no qual actuam de determinada forma.

Com base nas duas dimensões disciplina e disponibilidade, a literatura refere quatro estilos parentais:

Estilo Autoritário

Com valores altos de disciplina e baixos níveis de disponibilidade, os pais autoritários caracterizam-se como rígidos, valorizando a obediência absoluta. Utilizam estratégias educativas baseadas em ameaças e em medidas punitivas (verbais ou físicas). A exigência da obediência cega impede o diálogo bilateral. O estilo autoritário traz alguns riscos para criança, nomeadamente de depressão, ansiedade, baixa auto-estima, gerando jovens depressivos e submissos ou jovens agressivos e com dificuldade em estabelecer relações de qualidade.

Permissivo ou indulgente

Os pais permissivos ou indulgentes apresentam valores altos de disponibilidade e baixos valores de disciplina. A educação segundo o estilo permissivo oferece aos filhos um ambiente ausente de regras, sem encorajar qualquer obediência, pelo receio de traumatizar a criança, desvalorizando a importância destes aspectos para o seu desenvolvimento. Muitas vezes os comportamentos indesejados chegam mesmo a ser reforçados. Apesar de desenvolverem uma elevada auto-estima, filhos de pais permissivos ou indulgentes têm propensão para problemas comportamentais e de rendimento escolar, tornando-se jovens pouco estruturados e dependentes.

Estilo negligente

Caracterizado por valores baixos de disciplina e de disponibilidade, trata-se de um estilo marcado pela desresponsabilização face às funções parentais, no qual o envolvimento parental resume-se à satisfação das necessidades básicas da criança. As relações são pouco seguras, onde a estrutura e o afecto são praticamente inexistentes. O prognóstico é pouco favorável, originando crianças e jovens pouco estruturados com dificuldade em compreender e seguir as normas sociais, excepto se a criança encontrar modelos de identificação positivos ou possuir elevada resiliência.

Autorizado ou afirmativo

Também designado por democrático, o estilo autorizado representa valores altos de disponibilidade e de disciplina. Os pais afirmativos estimulam a autonomia dos seus filhos, por serem equilibradamente afectuosos, sensíveis e com firme controlo, dando explicações racionais e adequadas à idade para imposição de regras. Deste modo, os pais promovem o desenvolvimento social, moral e emocional mais saudável, criando filhos com maior sucesso escolar e social, com menor probabilidade de envolvimento em comportamentos de risco na adolescência e com maior bem-estar afectivo no início da idade adulta.

Os estilos autoritário e permissivo aparentam ser opostos, contudo, os estudos realizados mostram que os resultados produzidos na criança são idênticos, sendo que nenhum dos estilos foi associado a resultados positivos. É necessário salientar que a educação por parte de duas figuras parentais com estilos diferentes representa também um obstáculo ao crescimento saudável da criança.

À medida que a criança for crescendo, é inevitável que as práticas parentais se ajustem, já que os pais irão deparar-se com novos desafios, contudo, os estilos parentais tendem a manter-se estáveis ao longo do tempo.

Para adoptar o estilo parental autoritativo ou democrático na educação do seu filho, eis o que precisa de colocar em prática para promover o seu desenvolvimento saudável:

  • transmita afecto, carinho e segurança ao seu filho, certificando-se de que ele sabe que é importante para si;

  • pergunte ao seu filho como foi o seu dia e mostre-se verdadeiramente interessado nas suas rotinas (lembre-se que qualidade de tempo está acima de quantidade);

  • imponha limites e diga “não” de forma firme (embora estas últimas funções não sejam muito gratas, são necessárias);

  • perante um comportamento indesejado, explique-lhe de forma clara onde errou, por que deve alterar a sua conduta e o que se pretende conseguir;

  • em situação alguma deverá dizer que não gosta do seu filho ou ameaçar que deixará de o fazer, bem como humilhar ou desqualificar a criança;

  • transmita-lhe os valores e crenças que defende através da demonstração (a criança aprenderá melhor ao ver o seu exemplo);

  • esteja em sintonia com o seu cônjuge (nada mais confundirá a criança do que regras diferentes dentro do mesmo espaço);

  • reforce positivamente as atitudes correctas do seu filho;

  • fomente o hábito, o ritmo e a regularidade que são geralmente úteis para a criança, sem cair em rituais demasiado rígidos ou obsessivos.

Uma criança educada num meio familiar tranquilo e flexível, num equilíbrio entre a disciplina e as exigências e o amor e carinho incondicional, terá seguramente mais probabilidades de no futuro vir a ser um adulto equilibrado e feliz!

Cristina Reis
Psicóloga Clínica de Horas de Sonho, apoio à criança e à família, crl.

Referências Bibliográficas:

  • Baumrind, D. (1971). Currrent patterns of parental authority. Developmental Psychology Monograph, 4, 1-103.

  • Darling, N. & Steinberg, L. (1993). Parenting style as context: An integrative model. Psychological Bulletin, 113,487-496. 

  • Maccoby, E., & Martin, J. (1983). Socialization e in the contexto of the family: Parent-child interaction. In: Hetherington, E.M. ed. Socialization, personality, and social development. New York, NY: Wiley; 1983: 1-101. Mussen, P.H., ed. Handbook of child psychology. 4th ed; vol 4.

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